MEU (DES)ENCONTRO COM OS NEONAZIS
Por Solange Ayres
Berlin-Berlin cidade dividida. Este foi o cenário que presenciei há quase 10 anos após a queda do muro: perfurações de bombas e tiros da última guerra ainda eram vistos nas paredes das casas sem reformar. O muro já tinha sido demolido, mas as marcas da divisão eram vistas por toda parte.
Em visita à Berlin, entrei pela primeira vez contato com um grupo de neonazistas que eu só conhecia através das manchetes dos jornais: cabeças raspadas, vestidos de preto e calçando coturnos...
Alemanha unificada problemas resolvidos? Pelo contrário, imaginem o que passaria pela cabeça de cidadãos que ficaram fechados num regime comunista por décadas? O isolamento causou isolamento dos cérebros e o neonazismo encontrou terreno fértil para se desenvolver. Não é à toa que a maioria dos focos de radicais de direita estão la.
Até
1970 os extremistas de direita estavam organizados
chamados "Altnazis", ou "velhos nazistas". Os
neonazistas (neo: neu: novo) diferenciam-
Ataques brutais de jovens neonazistas têm acontecido
principalmente contra africanos, como ao engenheiro
etíope/ alemão em Potsdan e contra o inglês
trabalhador de construção civil Noel Martin em 1996,
que ficou paralítico de depois de um acidente de carro
provocado pela perseguição de um grupo de jovens
neonazistas. Não somente estrangeiros são vítimas dos
dos radicais de direita. Na Sachsen-Anhalt 5 atores
alemães foram atacados e feridos por serem
"diferentes"
Eles estão em toda parte
Até o final de agosto de 2006 foram registrados 8.000 atos praticados por extremistas de direita. Em comparação com o ano, 2005, anterior um aumento de 20%. Estatísticas de janeiro/fevereiro de 2008 em toda Alemanha, mostram que foram praticados e registrados 2053 delitos e atos de violência de caráter de extrema direita muito mais que em 2007, 1774 casos.
Os
ataques de neonazistas também não se restringem
somente aos estados do antigo Leste alemão, mas nos
últimos anos estão acontecendo em outras cidades do
país. Em Dormund em novembro de 2007 um grupo de 30
neonazistas atacaram um clube de turcos quebrando
janelas e ferindo pessoas. Há grupos de neonazis tanto
nas grandes quanto nas pequenas cidades e vilas, é
comum eles se organizarem em clubes de futebol, onde
têm os primeiros contatos com os jovens, muitas vezes
atuando nas torcidas organizadas dos clubes.
Os números da besta
Eles também se organizam em outros países da Europa e nos Eua, utilizam a internet como ponto de contato e troca de informações e se escondem atrás de símbolos numéricos 18, 1 da primeira letra do alfabeto "a" e 8 da oitava letra "h" (AH) Adolf Hitler e 88 (Heil Hitler) ou a palavra escrita de trás para frente, floda reltih. Quem vê suas camisas pensa que eles são de times de basquete. A indumentária também os identifica: jaqueta preta ou verde-oliva de exército, coturnos com cadarços brancos. Nos últimos anos os mais raros de se ver são os que usam roupas com as insígnias da marca "Pit Bull", uma referência ao agressivo cão da marca pitbull.
Na Rússia há cerca de 50 organizações de neonazistas e mais de 10 mil militantes, que distribuem livros, panfletos e jornais com conteúdos racistas propagando ódio aos imigrantes de outros paises, Tchechênia, Daguistão, Armênia, Azerbadijão.
Camaleões
É
interessante a forma como os grupos Neonazis procuram
se inserir na mídia, disfarçando sua ideologia,
"tentam o diálogo" com a sociedade, participam de
iniciativas e abaixo assinados "contra as drogas" ou
"contra a criminalidade"
Em suas aparições em público se apresentam como "cidadãos normais" pacifistas e se dizem perseguidos politicamente. Oportunistas, dependendo da intervenção, entortam a boca pelo uso do cachimbo e mostram suas verdadeiras caras, com suas ações agressivas.
NPD é legal
Fundado em l964, o NPD, Nationaldemokratich
Sendo o NPD um partido legal, causa indignação aos
cidadãos alemães sustentar com dinheiro do público,
sua propaganda racista. Há iniciativas de
parlamentares de esquerda no sentido de proibi-lo, de
colocá-lo na ilegalidade, mas há os defendem sua
legalidade por acreditar que desta forma torna-se mais
fácil combate-lo.
Fora da nova ordem
A
nova ordem mundial não tem perdoado a Alemanha. Novos
investidores procuram no mundo quem dá mais, mais
subsídios, mais vantagens, como mão-de-obra barata. Já
vimos aqui no OPS o "Caso Nókia", relatado em postagem
passada. A Alemanha esta perdendo concorrência para
outros paises não só da Comunidade Européia, mas para
paises asiáticos. Então os argumentos do NPD caem como
uma luva: Os políticos da Sacsônia pedem para que os
investidores que têm suas fábricas em outros paises,
retornem à Alemanha e fortaleçam a economia local,
ironicamente só agora que eles, os investidores,
descobriram onde esta a mina de capital humano mais
barato.
A maioria é pela proibição
Ainda que o NPD seja um partido legal na Alemanha, isto não significa que ele possua legitimidade entre os cidadãos. Esses utilizam o espaço e o sistema democrático para tentar fechá-lo, e cabe à sociedade civil colocar os limites à sua atuação, não somente através da justiça, e ou polícia. A sociedade que tem que ser chamada a refletir sobre o tema. Proibir somente, por exemplo, a panfletagem na porta das escolas, não impede que as idéias entrem por outras vias na cabeça de jovens e adolescentes e o importante é chamar a discussão para dentro das salas de aula e combater suas idéias com firmeza.
Segundo pesquisas feitas pelo Mannheimer
Forschungsgruppe entre 15 e 17 de abril de 2008 e
anunciados na da rede ZDF de comunicação, das 1210
pessoas entrevistadas, 74% são pela proibição do NPD,
22%contra. Ainda, 66% dos entrevistados o consideram
um perigo para a democracia. Os resultados são claros:
os alemães rejeitam o NPD e são pela sua proibição.
O (des) encontro
Em
minha última visita à Berlim em 1999, fui conhecer o
Cemitério Histórico e depositar flores nos túmulos de
Rosa de Luxemburgo e seu companheiro, Karl
Liebknecht, mortos por paramilitares no ano de 1919.
Lá encontrei um grupo de neonazis que vagavam pelo
cemitério vestidos de preto, usando coturnos militares
com suas cabeças raspadas. Num certo momento me
cercaram começaram a fazer piadinhas me ameaçando
fisicamente, me provocaram..
O que pensam os jovens de hoje
Se por um lado a população em geral rechaça o partido de extrema direita de idéias racistas e xenofóbicas, o resultado de outra pesquisa aqui causou indignação esta semana com a publicação de um estudo, ainda incompleto, e por isso criticado, feito pelo Instituto de Pesquisa Criminológica da Niedersachsen, solicitado pelo Ministério do Interior, sobre o que pensam os jovens estudantes. Mesmo que parcial (18.000 entrevistas de 50.000 planejadas) a pesquisa tem dados surpreendentes: De cada treze jovens entrevistados, um já praticou algum ato ilegal, como por exemplo, pichação, com a cruz gamada, ou mesmo atentados contra propriedades de estrangeiros. Um em cada cinco acha que "há estrangeiros demais" na Alemanha. Mesmo ainda não concluídas as pesquisas mostram que os jovens têm receio e desconfiança com relação aos muçulmanos e estrangeiros. Fatos como estes mostram que se não bastasse o trágico passado histórico, a Alemanha ainda tem que conviver com as idéias racistas e xenófobas da juventude do século XXI.
Podemos tentar enumerar algumas das causas, que não serão suficientes para justificar o porquê dos jovens de hoje ainda pensam e expressam-se desta maneira. Acredito que houve certa omissão do Estado ao não diagnosticar ou ignorar a realidade dos jovens não reconhecendo (até agora) o perigo de se ter uma juventude sem perspectivas. Ouso dizer que a sociedade se tornou complexa, muito mais complexa que nas décadas de 60, quando uma geração de jovens declarava a "paz e o amor" ao mundo. Hoje viver é ser bem sucedido, dentro da lógica do capitalismo e da globalização. A geração de jovens de hoje na, Alemanha, não conheceu crise financeira, maio de 68, passeatas e grandes protestos nas ruas contra a guerra do Vietnan, nem grandes movimentos formadores de opinião. Hoje se tem "tudo nos conformes" e a filosofia do "ser" foi superada pela "do ter". A vida se resume a uma competição no mundo globalizado e a ética foi posta de lado. Então no vácuo de idéias e polarizações os fracassos podem ser facilmente debitados na conta de outros, dos muçulmanos, dos estrangeiros, os problemas pessoais de cada um.
Uma
coisa é certa uma sociedade pluralista não pode ser
construída baseada na intolerância, violência. O
debate esta aberto, e todos, escolas, igrejas,
universidades, sindicatos, polícia têm que abrir os
olhos para o tema antes que seja tarde.
Fonte:
Ring Nationaler Frauen.
Miteinander-
Politik-digital, Information, Kommunikation, Partizipation.
Süddeutsche Zeitung/Die Subkultur der Neonasis/2007.
Kriminologisches Forschungsinstitut Niedersachsen E.V.
O Pensador Selvagem, 23/04/08
http://opensadorsel
(enviada pelo NIEM/RJ)

